HISTÓRIAS

I'm so fashion!!!

Acreditem! Por trás dessa vida pacata e simples já rolou um Elisio fashionista e badalado. É... mas isso faz um tempo. Era primavera de 2001 e este jovem estudante de Arte que vos escreve, explorava as quase infinitas possibilidades de produção artística e a moda era uma delas. No início dos anos 2000 começava a grande, e última, era da moda brasileira. A Gisele Bündchen era a modelo mais disputada pelas grandes grifes mundiais e havia elevado enormemente o status da modelo brasileira no exterior. Na safra dos criadores de moda havia uma energia no ar que só havia sido sentida anteriormente (mas sem comparação) quando Zuzu Angel estampa canhões e armas em lindos vestidos de madame em protesto contra a ditadura militar e a prisão e desaparecimento do seu filho Stuart Angel Jones. Mas voltemos ao futuro no ano 2000. A moda brasileira pulsava criatividade começava a ganhar as ruas internacionais e era cada vez mais charmoso usar um look do Ronaldo Fraga ou era glamouroso usar um André Lima, ou um Lino Vilaventura, e aqui na Bahia os nomes eram igualmente grandes. Glória Coelho, de longe, uma das estilistas (era assim que chamava) mais criativas. Seus looks desestruturados e faixas esvoaçantes são agora repetidas pela Balmain na coleção outono/inverno 2021.

Mas esse blá-blá-blá todo é para falar do meu passado fashion e 2001 era o melhor momento para tudo. Pelo menos ao que parecia. Mas de certa forma era mesmo, já que, talvez, fosse o ano da odisseia no espaço. Viradinha de século. Todo mundo achou que os computadores, que haviam acabado de entrar em nossas casas, entrariam em pane com o Bug do Milênio, entrávamos nas contagens regressivas de Blade Runner, para ver se os carros voariam ou se robôs escravizariam a humanidade e, também, as profecias em De volta para o futuro, mas a Nike não fabricou os sapatos que amarravam o cadarço sozinho e nem jaquetas autoajustáveis e menos ainda o skate voador, que seria um sonho! Mas era novo século e todo começo é meio que uma nova promessa. E é nesse encalço que eu me vejo como, quem sabe, uma parte da novidade!

Sempre curti o universo da moda, na verdade, eu gosto dos universos das estéticas e a moda não poderia ficar de fora. Desde as pequenas notinhas de moda internacional no Jornal Hoje, em meados dos anos de 1980, em que os desfiles eram uma grande loucura criativa, até eu mesmo pensar numa proposição em moda, muita água rolou. Muita ideia veio e sumiu da mente. Eu já tinha alguns desenhos soltos e um grande amigo, Iwison Ricardo, era vidrado em moda. Juntamos a fome com a vontade de beber. Desenhamos mais, e inscrevemos nossa, muitíssimo amadora, coleção num evento promovido pelo Shopping Barra (inaugurado alguns anos antes) para revelar Novos Talentos em moda na Bahia. O evento era badalado, as maiores top models brasileira e algumas internacionais, o casting da rede globo para dar badalação. Tudo era muito incrível. Era a quinta edição dos Novos Talentos do Shopping Barra e recebemos a notícia de que nossa coleção havia sido escolhida para aquele ano de 2001.








A matrizes formadoras do Brasil sempre foram uma grande inspiração e conduziam uma boa parte das nossas anotações e pesquisas em Arte. Quando começamos os desenhos da coleção resolvemos eleger um tema e chegamos, sem muita discussão, a Festa da Boa Morte realizada em Cachoeira no mês de agosto. Com o título Morte e Glória, tomamos o preto, o vermelho e o branco como cores chave das peças e mesclamos os elementos da festa a peças do cotidiano, ora em estampas, outras em elementos que compunham a indumentária e, finalmente, naquele domingo, 02 de setembro de 2001 a coisa toda se concretizava num desfile com todo um aparato profissional. Ainda curto muito me lembrar das luzes, dos nossos nomes projetados na boca de cena da passarela e da Top Model Valéria Baun adentrar num look branco liso, contrariando a ordem sequencial da celebração. Uma curiosidade! A música que conduziu a andanças das modelos no carpete preto era uma mistura bem bate-estaca, muito popular nas boates do período, com um incidental de senhoras lavadeira do Recôncavo com raios e trovões iansanescos provocando um certo susto na nossa top que tinha medo de trovões. A mistura de sons foi conduzida por Zene, uma artista da cena musical de Salvador e o produtor musical George Dias. Você pode escutar aqui

 




Penso que tenho mais saudade do movimento do que do desfile em si. Sempre tendo a concordar com Paul Klee que toda realização finalizada é morta, mas todo movimento é vivo/vida. Mas vida vivida é para ser lembrada! E o Barra Fashion, certamente, me colocou em movimento. Pós-desfile, era hora de posar para as câmeras, dar entrevistas e brincar um pouco de ser celebridade!




O feito ainda duraria um tempo. Os convites a participar de eventos paralelos começaram a chegar, nos tornamos figurinhas bem presentes desse circuito ao longo daquele ano e do seguinte. Ainda emplacamos um look do Shopping Barra para o carnaval de 2002 e em 2003 tivemos uma segunda coleção participante do I Verão Fashion Salvador, dessa vez explorando o Nego Fugido, sem a mesma pompa e circunstância do Barra Fashion, mas muito significativo para nossa produção.


Olhando agora com a distância do tempo, claro que era um trabalho muito amador e cercado de algumas inseguranças. Nem tudo foram flores, recebemos alguns comentários bem ácidos de alguns colunistas de moda da época, mas o bom mesmo é saber que esse acontecimento inscreveu um capítulo muito importante para mim, para meu desenvolvimento artístico, para a impulsão em permanecer produzindo. Que lembrança boa! E que bom poder compartilhar com vocês um momento tão especial na minha vida, que completou 20 anos em 2021. O bom disso tudo é ver como cada coisa feita foi inspiradora para o que vivo agora. Tomara que este post estimule as mentes criativas!

Um beijo para você que leu e curtiu!